Experimento da startup Orbital Matter produziu uma peça rígida de cerca de 50 centímetros no vácuo espacial; tecnologia poderá permitir painéis solares, antenas e outras estruturas maiores do que as comportadas pelos foguetes atuais.
Uma impressora 3D instalada em um satélite conseguiu fabricar uma estrutura rígida no espaço, sem a proteção de uma estação espacial ou de uma cabine pressurizada. O experimento foi realizado pela Orbital Matter, startup especializada em manufatura espacial, e representa um avanço na tentativa de construir componentes de satélites diretamente em órbita.
O equipamento utilizado na demonstração faz parte do Replicator 2, satélite lançado em julho de 2026. Segundo a empresa e informações publicadas pelo TechCrunch em 3 de novembro, o sistema conseguiu produzir uma viga de aproximadamente 50 centímetros usando um polímero desenvolvido para esse tipo de aplicação.
O resultado é importante porque demonstra que a fabricação aditiva pode funcionar em um ambiente muito mais hostil do que uma oficina ou um laboratório. No futuro, a técnica poderá ajudar a construir estruturas extensas sem a necessidade de transportá-las completamente montadas da Terra.
Como funciona a impressão 3D no espaço
O Replicator 2 transporta quatro impressoras desenvolvidas para trabalhar em condições de microgravidade e vácuo. Em vez de utilizar filamento plástico sólido, como muitas impressoras 3D domésticas, o sistema extruda uma resina polimérica que é endurecida por luz ultravioleta.
O material é depositado progressivamente, formando uma estrutura cilíndrica rígida. A ausência de atmosfera, as variações extremas de temperatura e a microgravidade tornam o processo mais complexo do que a impressão convencional.
A tecnologia também precisa lidar com desafios como o controle do fluxo de material, a precisão da deposição e a resistência da peça depois de exposta ao ambiente espacial.
A Orbital Matter já havia divulgado, em agosto, uma demonstração inicial de impressão no vácuo aberto. A etapa mais recente amplia esse trabalho ao buscar estruturas funcionais que possam ser utilizadas para sustentar componentes de satélites.
Por que fabricar peças em órbita pode mudar a construção de satélites
Hoje, grandes painéis solares, antenas e outros componentes espaciais precisam ser dobrados ou compactados para caber dentro da carenagem do foguete. Depois do lançamento, esses equipamentos são desdobrados por mecanismos que precisam funcionar corretamente em um ambiente no qual reparos são difíceis e caros.
A impressão 3D em órbita oferece uma alternativa: transportar a matéria-prima e fabricar parte da estrutura somente depois de chegar ao espaço.
Isso poderia reduzir algumas das limitações físicas impostas pelo tamanho dos foguetes. Em vez de depender exclusivamente de estruturas dobráveis, futuras missões poderiam produzir vigas e suportes sob medida, adaptados às necessidades de cada satélite.
Entre as aplicações possíveis estão painéis solares de grandes dimensões, antenas de comunicação, estruturas para telescópios e componentes de futuras plataformas orbitais.
Um dos objetivos é alimentar centros de dados espaciais
A tecnologia também desperta interesse por causa dos projetos de centros de dados em órbita. Essas instalações, ainda em desenvolvimento conceitual e tecnológico, precisariam de bastante eletricidade para alimentar seus equipamentos e de sistemas capazes de dissipar o calor gerado durante a operação.
Painéis solares maiores poderiam aumentar a geração de energia, enquanto estruturas extensas poderiam oferecer espaço para equipamentos e radiadores térmicos.
No entanto, imprimir uma viga não significa que um centro de dados espacial já seja viável. Sistemas desse tipo ainda enfrentam desafios relacionados a custos de lançamento, manutenção, comunicação, proteção contra radiação, confiabilidade e controle térmico.
A fabricação em órbita é uma das tecnologias que podem ajudar a superar parte dessas limitações, mas ainda precisa evoluir antes de permitir estruturas comerciais de grande porte.
Nem todas as impressoras funcionaram como previsto
O experimento também teve contratempos. De acordo com o relato publicado pelo TechCrunch, uma das impressoras destinadas à implantação de um painel solar apresentou uma anomalia e falhou. Ainda assim, a estrutura produzida pelo outro equipamento conseguiu participar da implantação do conjunto solar.
A falha mostra por que testes em órbita são necessários. Mesmo com simulações e ensaios em solo, o comportamento dos materiais e dos mecanismos pode mudar quando eles são expostos à microgravidade, ao vácuo e às oscilações térmicas do espaço.
A estratégia da Orbital Matter foi levar quatro impressoras na mesma missão para testar diferentes configurações e ajustar o software durante a operação. O objetivo é identificar os problemas antes de ampliar a escala da tecnologia.
Vigas de 100 metros ainda são uma meta, não uma realidade
A empresa acredita que sua tecnologia poderá produzir vigas com até 100 metros de comprimento. A dimensão seria muito superior à das estruturas utilizadas em muitos satélites atuais e poderia permitir a instalação de painéis solares de grande porte.
Por enquanto, porém, essa possibilidade é uma projeção dos engenheiros, e não uma capacidade já demonstrada em órbita. O teste de aproximadamente meio metro representa uma prova inicial do processo, não a validação de uma estrutura de 100 metros.
A resistência mecânica, a estabilidade durante as mudanças de temperatura, a exposição à radiação e a durabilidade do material precisarão ser avaliadas em demonstrações progressivamente maiores.
A empresa também pretende realizar uma nova missão, prevista para 2028, com uma impressora ampliada e um conjunto solar projetado para gerar cerca de 5 kW de potência. A meta de alcançar estruturas capazes de sustentar mais de 100 kW por conjunto até 2030 permanece como um objetivo de longo prazo.
A impressão 3D espacial já existia, mas havia uma diferença importante
A fabricação aditiva no espaço não começou com a Orbital Matter. A Estação Espacial Internacional já recebeu impressoras 3D e realizou experimentos de fabricação de ferramentas e peças em seu interior.
A diferença do Replicator 2 é trabalhar no vácuo aberto, fora de uma estrutura pressurizada. Esse ambiente impõe condições mais severas e é justamente onde grandes componentes espaciais precisariam ser fabricados.
A NASA também financiou o projeto OSAM-2, desenvolvido com a empresa Redwire para demonstrar a fabricação e a montagem de estruturas em órbita. O programa foi encerrado em 2023, antes de realizar a demonstração em voo, embora tenha produzido resultados relevantes em testes terrestres.
O histórico mostra que construir estruturas no espaço é uma área de pesquisa em andamento, com diferentes equipes tentando resolver problemas semelhantes por meio de técnicas de fabricação e montagem.
O que vem pela frente
A Orbital Matter trabalha com a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Thales Alenia Space, fabricante europeia de sistemas espaciais. A intenção é avançar de pequenas peças impressas para estruturas capazes de sustentar painéis solares, antenas e outros equipamentos.
Se os próximos testes forem bem-sucedidos, a tecnologia poderá mudar a forma como algumas missões são projetadas: em vez de limitar cada estrutura ao espaço disponível dentro do foguete, os engenheiros poderão planejar a fabricação de componentes depois do lançamento.
Por enquanto, o avanço é experimental. O Replicator 2 não demonstrou a construção de satélites completos nem a produção de vigas com dezenas de metros. O que ele oferece é uma evidência concreta de que a impressão de estruturas rígidas no vácuo espacial pode funcionar — um passo necessário para que projetos muito maiores saiam do papel.
