Tecnologia usa projeção e uma película óptica especial para exibir imagens no vidro, sem deixar uma tela convencional permanentemente visível no interior do carro. Sistema ainda está em desenvolvimento.
A corrida das montadoras por telas cada vez maiores pode estar prestes a ganhar um novo capítulo. A Mercedes-Benz está desenvolvendo um sistema de projeção holográfica capaz de transformar o para-brisa em uma superfície para exibir informações, imagens e conteúdo de entretenimento. A proposta é oferecer recursos digitais sem depender de grandes painéis que ocupam boa parte do acabamento do veículo.
A tecnologia foi apresentada pela fabricante alemã em 3 de novembro de 2026, durante a divulgação de pesquisas realizadas em seu centro de desenvolvimento em Sindelfingen, na Alemanha. Apesar do nome, não se trata de um holograma que flutua no ar, como os vistos em filmes de ficção científica. O sistema utiliza um projetor e elementos ópticos incorporados ao vidro para direcionar a imagem a determinados ângulos de visão.
Como funciona a tela holográfica da Mercedes-Benz
O sistema combina dois componentes principais: um projetor instalado no painel e uma película transparente laminada no para-brisa. Essa película contém elementos ópticos holográficos, conhecidos pela sigla HOE, que refletem seletivamente a luz emitida pelo projetor.
Na prática, o mecanismo permite concentrar a imagem em uma região específica do vidro, mantendo a transparência nas demais áreas. Segundo a Mercedes-Benz, a solução também foi desenvolvida para manter a visibilidade do conteúdo mesmo sob luz solar intensa.
Outro diferencial é a possibilidade de direcionar imagens para um ocupante sem torná-las visíveis para o outro. Isso abre espaço para exibir informações ao motorista e conteúdo de entretenimento ao passageiro dianteiro, sem que ambos precisem compartilhar a mesma tela.
A ideia é aproveitar uma superfície que já existe no automóvel, reduzindo a necessidade de instalar displays convencionais no painel ou diante do passageiro.
O fim das telas gigantes nos carros de luxo?
Nos últimos anos, as telas se tornaram um dos principais elementos visuais dos interiores automotivos. A própria Mercedes-Benz apostou nessa tendência com a MBUX Hyperscreen, uma estrutura que reúne diferentes áreas de exibição sob uma superfície contínua de vidro.
Entretanto, a presença de mais tecnologia não significa necessariamente uma experiência melhor para todos os consumidores. Alguns proprietários preferem interiores com madeira, metal, botões físicos e outros acabamentos tradicionais, em vez de um painel dominado por superfícies digitais.
Essa discussão ganhou força em fevereiro de 2025, quando Gorden Wagener, então responsável pelo design da Mercedes-Benz, afirmou em entrevista à ABC News que telas não são sinônimo de luxo. Para o executivo, o diferencial de um automóvel premium está também no acabamento, no cuidado com os detalhes e na sofisticação do conjunto. <sup>2</sup>
Em setembro de 2026, seu sucessor, Bastian Baudy, também defendeu a importância dos materiais e dos comandos físicos no interior dos veículos. A posição indica que a fabricante busca equilibrar inovação digital com elementos tradicionais de seus modelos. <sup>3</sup>
Nesse contexto, a projeção holográfica pode representar uma alternativa interessante: oferecer recursos modernos sem transformar todo o painel em uma grande superfície de vidro.
O que a tecnologia poderá oferecer
A Mercedes-Benz considera diferentes aplicações para o sistema. Entre as possibilidades estão informações de navegação, indicações sobre pontos de interesse ao longo do percurso, dados relacionados à condução e conteúdo de entretenimento.
No lado do passageiro, a projeção poderá funcionar como alternativa às telas dedicadas a filmes e outros conteúdos. Para o motorista, uma aplicação possível seria ampliar os recursos dos atuais sistemas de projeção de informações no para-brisa, conhecidos como HUD, sigla em inglês para head-up display.
A fabricante também avalia como essa tecnologia poderá se integrar a futuras experiências de condução automatizada. No entanto, não há confirmação de que todas essas funções chegarão a um modelo de produção.
É importante fazer essa distinção: a apresentação de uma possibilidade técnica não significa que ela já esteja pronta para uso comercial.
Protótipo ainda tem limitações
Apesar do potencial, o sistema demonstrado pela Mercedes-Benz está longe de representar um produto finalizado.
Em uma avaliação publicada pela Ars Technica em novembro de 2026, o protótipo apresentou imagens com resolução inferior à de uma tela convencional para passageiros, além de problemas de contraste e distorção visual relacionados à configuração experimental.
A unidade demonstrada também utilizava um projetor volumoso e um sistema de ventilação ruidoso. Os engenheiros afirmaram que a versão definitiva deverá ter componentes mais compactos, funcionamento mais silencioso e qualidade de imagem superior.
Essas limitações são relevantes principalmente para o uso de vídeos e outros conteúdos que exigem maior definição. Para informações simples, como dados meteorológicos, ícones e orientações de navegação, os requisitos são diferentes dos necessários para reproduzir filmes com boa qualidade.
A Mercedes-Benz afirma que a película e a área de exibição podem ser ampliadas. Ainda assim, será necessário verificar como o sistema se comportará em condições reais de uso, incluindo variações de luminosidade e diferentes posições dos ocupantes.
Telas para passageiros são realmente necessárias?
A adoção de displays adicionais também levanta uma questão comercial. Nem todo consumidor considera útil ter uma tela exclusiva para o passageiro dianteiro, especialmente quando já existem smartphones e tablets para entretenimento.
O estudo de qualidade multimídia automotiva da J.D. Power, divulgado em setembro de 2025, identificou problemas recorrentes nos sistemas de entretenimento e informação dos veículos. Entre os pontos destacados estavam dificuldades relacionadas às telas sensíveis ao toque e à experiência de utilização. A pesquisa reforça a importância da facilidade de uso, mas não deve ser interpretada, isoladamente, como prova de que todos os consumidores rejeitam telas para passageiros. <sup>5</sup>
A projeção no para-brisa poderá oferecer uma experiência diferente, mas isso não garante que haverá demanda suficiente para justificar sua adoção em larga escala.
Outro aspecto importante é a segurança. Embora a tecnologia possa manter determinados conteúdos fora do campo de visão do motorista, qualquer recurso de entretenimento precisa evitar distrações. A utilidade de um sistema desse tipo dependerá de como as informações são apresentadas e de quais funções ficam disponíveis enquanto o veículo está em movimento.
Quando a tela holográfica chegará aos carros?
Por enquanto, a Mercedes-Benz não anunciou uma data de lançamento comercial nem confirmou qual modelo receberá primeiro a tecnologia. A empresa informa que o sistema permanece em desenvolvimento e ainda não está pronto para produção em série. <sup>1</sup>
Isso significa que não há base para afirmar que a próxima geração de um modelo específico já contará com a novidade ou que ela substituirá definitivamente as telas tradicionais.
O projeto, porém, revela uma mudança interessante na maneira como as montadoras estão pensando o interior dos veículos. Em vez de competir apenas pelo tamanho dos displays, a indústria começa a explorar formas de integrar a tecnologia ao ambiente sem comprometer o acabamento e a funcionalidade.
Se conseguir combinar boa qualidade de imagem, discrição visual, facilidade de uso e segurança, a solução da Mercedes-Benz poderá abrir novas possibilidades para os carros de luxo. Até lá, a pergunta continua em aberto: os consumidores querem mais telas ou preferem que a tecnologia apareça apenas quando realmente faz diferença?
