Executivo acredita que a inteligência artificial poderá acelerar a descoberta de tratamentos e transformar a medicina, mas especialistas ainda apontam obstáculos importantes entre as pesquisas e a chegada de novas terapias aos pacientes.
A inteligência artificial poderá provocar avanços importantes na medicina nos próximos 12 a 18 meses. Essa é a previsão de Greg Brockman, cofundador e presidente da OpenAI, que acredita que a tecnologia está próxima de produzir resultados significativos na compreensão de doenças e no desenvolvimento de novos tratamentos.
Durante sua participação no evento WSJ Tech, promovido pelo The Wall Street Journal, Brockman foi além das aplicações médicas mais imediatas e mencionou até mesmo a possibilidade de, no futuro, a morte se tornar uma escolha.
Segundo o executivo, a inteligência artificial poderá ajudar a resolver problemas biológicos que atualmente representam grandes desafios para a ciência.
“Você verá resultados concretos e avanços realmente significativos na biologia, na saúde e na cura de doenças nos próximos 12 a 18 meses”, afirmou Brockman durante a entrevista.
Ele também reconheceu que a promessa de curar doenças por meio da inteligência artificial já se tornou recorrente no setor de tecnologia. Ainda assim, acredita que os próximos avanços poderão demonstrar resultados mais concretos.
Da descoberta de medicamentos à possibilidade de combater doenças
O interesse da indústria de inteligência artificial pela medicina não é recente. Empresas de tecnologia e laboratórios farmacêuticos estão investindo em modelos capazes de analisar grandes volumes de informações biológicas, identificar possíveis alvos terapêuticos e acelerar etapas da descoberta de medicamentos.
Uma das possibilidades mais importantes está na capacidade de identificar estruturas de proteínas e prever como determinadas moléculas podem interagir com elas. Isso pode ajudar pesquisadores a encontrar caminhos para desenvolver medicamentos que seriam difíceis de descobrir utilizando métodos tradicionais.
A inteligência artificial também pode contribuir para selecionar participantes de ensaios clínicos, analisar resultados de pesquisas e identificar padrões em dados médicos.
Entretanto, encontrar uma molécula promissora não significa necessariamente desenvolver um medicamento eficaz. Antes de chegar aos pacientes, um tratamento precisa passar por diferentes etapas de testes pré-clínicos e clínicos, demonstrando segurança e eficácia.
É justamente nessa transição entre a descoberta científica e a aplicação médica que ainda existem desafios consideráveis.
Morte se tornar uma escolha ainda é uma hipótese distante
A declaração mais ambiciosa de Brockman foi a referência à possibilidade de a morte se tornar uma escolha.
O executivo não apresentou um mecanismo científico, um projeto específico ou um prazo para que isso aconteça. Sua fala está relacionada à perspectiva de que avanços em biologia, medicina e inteligência artificial possam ampliar significativamente a capacidade humana de prevenir e tratar doenças.
Na prática, isso poderia envolver diagnósticos mais precoces, tratamentos personalizados, regeneração de tecidos e novas formas de combater doenças associadas ao envelhecimento.
Mas existe uma diferença importante entre aumentar a expectativa de vida, controlar doenças e eliminar o envelhecimento ou a morte. A ciência ainda está muito distante de demonstrar que esses últimos objetivos sejam possíveis.
Portanto, a declaração deve ser entendida como uma visão futurista sobre o potencial da tecnologia, e não como uma previsão médica respaldada por resultados já alcançados.
A indústria de IA também enfrenta o risco do excesso de otimismo
A confiança de Brockman não é isolada. Em outubro, Shyam Sankar, diretor de tecnologia da Palantir, afirmou que alguns pesquisadores de inteligência artificial estariam tão convencidos de que a tecnologia poderá curar o câncer que teriam começado a fumar como uma demonstração dessa confiança.
Sankar classificou esse comportamento como uma espécie de delírio coletivo em torno das possibilidades da inteligência artificial. Entretanto, não apresentou evidências que comprovassem a dimensão dessa suposta tendência.
O episódio ilustra como as expectativas em torno da IA podem ultrapassar aquilo que a pesquisa científica já conseguiu demonstrar.
Embora existam avanços reais na utilização da tecnologia para pesquisas biomédicas, ainda não há evidências de que a inteligência artificial esteja prestes a eliminar o câncer ou tornar doenças graves amplamente curáveis.
O que a ciência já conseguiu demonstrar?
A aplicação da inteligência artificial na medicina já apresenta resultados relevantes, especialmente na análise de imagens, identificação de padrões, pesquisa de medicamentos e apoio ao planejamento de ensaios clínicos.
Uma revisão publicada em agosto de 2026 na revista Nature Reviews Clinical Oncology, por exemplo, destaca que uma das aplicações mais promissoras da IA na oncologia está na organização de pesquisas clínicas, incluindo a identificação de pacientes elegíveis e o acompanhamento de estudos.
Os pesquisadores, porém, ressaltam que ferramentas mais ambiciosas, como simulações de resultados clínicos e pacientes digitais, ainda enfrentam limitações de validação.
Outro levantamento publicado na revista Cancer Treatment Reviews identificou 129 medicamentos desenvolvidos com auxílio de inteligência artificial que haviam chegado a ensaios clínicos em humanos até março de 2026. A maior parte dos projetos ainda estava nas fases iniciais de avaliação.
Isso demonstra que a tecnologia já está participando do desenvolvimento de novos tratamentos, mas também evidencia que existe um longo caminho entre encontrar possíveis candidatos a medicamentos e comprovar que eles funcionam.
Os próximos 18 meses serão decisivos para medir as expectativas
A previsão de Greg Brockman coloca uma expectativa considerável sobre o setor de inteligência artificial. Se os próximos 12 a 18 meses trouxerem resultados concretos na pesquisa biomédica, será possível avaliar melhor até onde os modelos atuais podem contribuir para acelerar descobertas científicas.
Ainda assim, não seria correto interpretar suas declarações como uma promessa de cura do câncer ou de outras doenças nesse intervalo.
O avanço da medicina depende de muito mais do que capacidade computacional. É necessário compreender mecanismos biológicos, testar hipóteses, avaliar riscos e demonstrar benefícios reais em seres humanos.
A inteligência artificial pode se tornar uma das ferramentas mais importantes dessa transformação. Mas, entre a possibilidade apresentada por executivos de tecnologia e uma descoberta médica capaz de mudar a vida de milhões de pessoas, ainda existe uma distância que somente a ciência poderá percorrer.
