Levantamento da Owl Labs mostra que empresas acompanham horários, reuniões e movimentos no computador, mas o controle não garante maior produtividade. Pesquisa também revela apoio à transparência sobre a vigilância no ambiente profissional.
Uma parcela significativa dos trabalhadores britânicos acredita estar sendo observada por ferramentas digitais instaladas ou utilizadas pelas empresas. Segundo o relatório State of Hybrid Work 2026, da Owl Labs, 59% dos profissionais entrevistados dizem que seus empregadores utilizam softwares de monitoramento. Ao mesmo tempo, 82% defendem que as empresas deveriam ser legalmente obrigadas a informar quando recorrem a esse tipo de tecnologia. UK Report+1
A vigilância vai além do registro tradicional de entrada e saída. Dependendo da ferramenta adotada, o acompanhamento pode incluir participação em reuniões, movimentação do mouse, atividade no teclado e outros indicadores de uso do computador.
O levantamento reacende uma discussão importante no mercado de trabalho: até que ponto acompanhar a atividade digital dos funcionários ajuda a avaliar seu desempenho — e quando essa prática passa a representar apenas uma forma de controle?
O que as empresas estão monitorando?
Os dados divulgados pela Owl Labs indicam que o registro de horários continua sendo a modalidade mais comum entre as atividades monitoradas. Veja os principais indicadores relatados pelos trabalhadores:
Horários de entrada e saída
32%
Quantidade de reuniões frequentadas
22%
Movimentos de tela e mouse
17%
Uso do teclado
15%
Percentual de trabalhadores que relataram cada tipo de monitoramento. Fonte: Owl Labs, State of Hybrid Work 2026. UK Report+1
Esses números representam categorias de monitoramento relatadas pelos entrevistados, não a proporção de empresas que utiliza cada ferramenta. Também não significam que todos os empregadores acompanhem simultaneamente todas essas atividades.
O problema apontado pela pesquisa é que métricas desse tipo podem oferecer uma visão incompleta do trabalho. Um funcionário pode passar longos períodos lendo documentos, planejando uma solução ou analisando informações sem movimentar o mouse continuamente. Da mesma forma, registrar presença em uma reunião não demonstra, por si só, atenção, participação ou contribuição efetiva.
Funcionários já encontram maneiras de contornar as métricas
A tentativa de medir produtividade por meio de registros digitais pode gerar um efeito contrário ao esperado: funcionários passam a priorizar os indicadores monitorados, em vez dos resultados reais do trabalho.
De acordo com a pesquisa, 28% dos trabalhadores britânicos admitem praticar a chamada “presença fantasma” em reuniões. A expressão descreve situações em que a pessoa consta como participante, mas não acompanha efetivamente a conversa, deixando para consultar as anotações ou os resumos posteriormente.
O comportamento é ainda mais frequente entre gestores: 33% deles relatam essa prática, contra 15% dos profissionais sem cargo de gestão. UC Advanced+1
O relatório também identificou interesse no uso de avatares de inteligência artificial para representar pessoas em reuniões. Metade dos gestores entrevistados considera essa possibilidade, contra 21% dos demais trabalhadores.
Esses números não demonstram que a maioria dos profissionais esteja tentando enganar seus empregadores. Eles indicam, porém, que a presença registrada em uma plataforma nem sempre corresponde ao envolvimento real de uma pessoa.
Trabalho híbrido perde tempo com problemas técnicos
O levantamento também aponta um problema mais concreto para as empresas: as dificuldades técnicas nas reuniões híbridas, que combinam participantes presenciais e remotos.
Segundo a Owl Labs, 73% dos trabalhadores entrevistados perderam tempo por causa de problemas técnicos nessas reuniões. Entre as dificuldades relatadas estão falhas de áudio, eco, distorções e problemas para ouvir todos os participantes.
A equipe leva, em média, seis minutos para conseguir iniciar uma reunião híbrida. Embora pareça pouco, esse tempo se acumula quando uma organização realiza dezenas ou centenas de reuniões diariamente. UK Report+1
A empresa defende que melhorar os equipamentos de áudio e vídeo pode trazer benefícios mais concretos do que simplesmente ampliar a fiscalização digital dos funcionários.
A lógica é simples: uma reunião que começa atrasada, apresenta falhas de som e dificulta a participação dos envolvidos prejudica a produtividade independentemente de quantos cliques ou movimentos de mouse sejam registrados.
Monitoramento no trabalho já é regulamentado no Reino Unido?
Existe uma ressalva importante na interpretação dos resultados: não é correto afirmar que o monitoramento de funcionários seja totalmente desregulamentado no Reino Unido.
A legislação britânica de proteção de dados já estabelece obrigações para empresas que coletam e utilizam informações pessoais dos trabalhadores. A orientação do Information Commissioner’s Office (ICO) determina que o monitoramento tenha uma justificativa legítima, seja proporcional ao objetivo e respeite os direitos de privacidade. Em regra, os funcionários também precisam ser informados sobre o que é coletado e por quê. GOV.UK+2
A distinção está no tipo de exigência discutida. Os 82% citados pela pesquisa defendem que a divulgação do uso dessas ferramentas seja uma obrigação legal expressa. Isso não significa que hoje as empresas tenham liberdade irrestrita para monitorar seus funcionários sem aviso ou justificativa.
A orientação oficial pode ser consultada na página do governo britânico sobre monitoramento de funcionários e proteção de dados.
O que muda para empresas e trabalhadores?
O debate não se resume a escolher entre monitorar ou não monitorar. Ferramentas de acompanhamento podem ser úteis para segurança da informação, cumprimento de obrigações regulatórias e controle de acesso. O problema aparece quando indicadores limitados são tratados como uma medida completa de desempenho.
Uma empresa que avalia seus funcionários principalmente pelo tempo conectado, pela movimentação do mouse ou pelo número de reuniões frequentadas corre o risco de confundir atividade digital com produtividade.
A transparência também tem um papel importante. Explicar quais dados são coletados, por quanto tempo são armazenados, quem pode acessá-los e como influenciam avaliações profissionais ajuda a reduzir incertezas e permite que os trabalhadores compreendam as regras.
No relatório de 2026, o CEO da Owl Labs, Frank Weishaupt, defende justamente uma postura mais aberta por parte das organizações, associando confiança e tecnologia confiável à capacidade de manter equipes produtivas.
Conclusão: vigiar mais não significa produzir mais
Os resultados da Owl Labs mostram uma tensão crescente entre a busca das empresas por visibilidade sobre o trabalho e a expectativa dos funcionários por privacidade e autonomia.
A pesquisa é um levantamento de opiniões e experiências declaradas, não uma demonstração científica de que todo software de monitoramento seja ineficaz. Ainda assim, os dados apontam limites claros para o uso de métricas digitais isoladas: estar conectado não significa estar produzindo, assim como participar de uma reunião não garante contribuição efetiva.
Para as empresas, o desafio é combinar ferramentas de controle proporcionais às suas necessidades com avaliações baseadas em entregas, qualidade e resultados. Em muitos casos, corrigir problemas de infraestrutura e melhorar a organização das reuniões pode ser mais útil do que acompanhar cada movimento dos funcionários.
