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    Qualcomm vê receita com chips para smartphones despencar 26% em meio à crise de memória

    Kayobrussy GuedesPor Kayobrussy Guedes6 de novembro de 2026Nenhum comentário7 Mins de leitura
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    Fabricante tenta reduzir dependência do mercado de celulares com investimentos em inteligência artificial, data centers e setor automotivo. Apesar do crescimento em novas áreas, queda nas vendas de smartphones e pressão sobre as margens preocupam investidores.

    A Qualcomm enfrenta um momento de transição. Conhecida mundialmente pelos processadores Snapdragon utilizados em smartphones Android, a fabricante norte-americana registrou uma queda de 26% na receita com chips para celulares no quarto trimestre fiscal de 2026. O resultado reflete a combinação de demanda mais fraca, aumento dos preços das memórias e dificuldades enfrentadas pelos fabricantes de dispositivos móveis.

    Os números foram divulgados em 4 de novembro, referentes ao trimestre encerrado em 27 de setembro de 2026. No período, a empresa registrou receita total de US$ 10,32 bilhões, uma redução de 8% em comparação com os US$ 11,27 bilhões contabilizados no mesmo trimestre do ano anterior.

    O principal impacto veio justamente de sua atividade mais tradicional. A divisão de chips para smartphones movimentou US$ 5,14 bilhões, contra US$ 6,96 bilhões no quarto trimestre fiscal de 2025.

    O resultado representa um desafio importante para a companhia comandada por Cristiano Amon, que vem tentando diversificar suas fontes de receita para diminuir a dependência do mercado de celulares.

    Crise de memória pressiona fabricantes de smartphones

    Um dos fatores por trás da queda é a alta dos preços dos componentes utilizados na fabricação de smartphones, especialmente as memórias DRAM e NAND.

    A indústria de semicondutores está direcionando parte significativa de sua capacidade produtiva para atender à demanda de servidores e data centers voltados à inteligência artificial. Esses produtos, especialmente as memórias de alta largura de banda utilizadas em aceleradores de IA, oferecem maior rentabilidade aos fornecedores.

    Como consequência, fabricantes de smartphones enfrentam custos maiores e dificuldades para garantir o fornecimento de componentes. O problema afeta principalmente aparelhos de entrada e intermediários, nos quais as margens de lucro são menores e aumentos de preço podem comprometer as vendas.

    A situação também aparece nos números do mercado global. Segundo estimativas preliminares da Counterpoint Research, as remessas mundiais de smartphones caíram aproximadamente 20% no terceiro trimestre de 2026, atingindo o menor volume para esse período em 14 anos.

    Cristiano Amon afirmou que a Qualcomm antecipou os problemas relacionados ao fornecimento de memória e se preparou para enfrentar o cenário. Segundo o executivo, o mercado de smartphones Android começava a apresentar sinais de recuperação, mas a escassez de componentes mudou as perspectivas para o setor.

    Automóveis e Internet das Coisas ajudam a compensar perdas

    Enquanto o mercado de smartphones apresenta dificuldades, outras áreas de atuação da Qualcomm estão crescendo rapidamente.

    O destaque foi a divisão automotiva, que registrou receita de US$ 1,99 bilhão no trimestre, crescimento de 89% em relação ao mesmo período do ano anterior.

    A expansão está relacionada à maior utilização de tecnologias digitais nos veículos, incluindo sistemas de entretenimento e informação, conectividade, painéis digitais e soluções avançadas de assistência ao motorista.

    A empresa também vem ampliando sua presença em plataformas computacionais para automóveis conectados, um mercado que exige processadores cada vez mais sofisticados.

    Outro segmento com desempenho positivo foi o de Internet das Coisas (IoT), que reúne soluções para equipamentos industriais, dispositivos conectados, redes e diferentes aplicações de computação.

    A receita dessa divisão alcançou US$ 1,89 bilhão, alta de 4% na comparação anual.

    Somados, os negócios automotivo e de IoT cresceram 36%, demonstrando que a estratégia de diversificação começa a produzir resultados financeiros relevantes.

    Dependência dos smartphones também preocupa por causa da Apple

    Outro desafio para a Qualcomm está relacionado à estratégia da Apple de desenvolver seus próprios modems para substituir gradualmente os componentes fornecidos por terceiros.

    Durante muitos anos, a fabricante dos iPhones utilizou modems da Qualcomm para garantir a conectividade celular de seus aparelhos. Entretanto, a Apple vem avançando no desenvolvimento de soluções próprias, o que pode reduzir progressivamente a participação da Qualcomm nesse fornecimento.

    Apesar dessa mudança, as empresas renovaram seus acordos de licenciamento de patentes de longo prazo. Isso significa que a Qualcomm continuará recebendo pagamentos pelo uso de sua propriedade intelectual, mesmo que a participação de seus modems nos dispositivos da Apple diminua.

    A companhia também renovou acordos de licenciamento com Huawei e Transsion, preservando importantes fontes de receita relacionadas às suas tecnologias de comunicação.

    Qualcomm aposta em data centers e inteligência artificial

    Para compensar a possível desaceleração do mercado de smartphones, a Qualcomm está direcionando investimentos para um dos segmentos mais disputados da indústria de tecnologia: os data centers.

    A empresa pretende disputar espaço com fornecedores tradicionais de processadores e desenvolver soluções especializadas para infraestrutura de inteligência artificial, especialmente em tarefas de inferência, quando modelos de IA processam informações e geram respostas.

    Em setembro de 2026, a Qualcomm anunciou uma colaboração de várias gerações de produtos com a Amazon. O acordo envolve o desenvolvimento de chips personalizados para a infraestrutura de inteligência artificial da AWS, além de tecnologias de conectividade óptica para comunicação entre equipamentos nos data centers.

    A companhia também trabalha no desenvolvimento de soluções destinadas a outros grandes operadores de nuvem, incluindo Microsoft e Meta.

    Cristiano Amon estabeleceu uma meta ambiciosa: alcançar US$ 5 bilhões em receita com data centers durante o ano fiscal de 2027. A expectativa é que aproximadamente US$ 650 milhões desse valor sejam registrados já no primeiro trimestre.

    A Qualcomm também projeta crescimento superior a 60% na receita de seus negócios fora do mercado de smartphones durante o ano fiscal de 2027.

    Outra iniciativa importante foi anunciada em novembro. A SpaceX selecionou as plataformas Dragonwing, da Qualcomm, para equipar estações terrestres de sua rede Starlink Mobile nos Estados Unidos. O projeto prevê a utilização de tecnologias 5G, incluindo Massive MIMO, para ampliar a capacidade e a eficiência da infraestrutura de comunicação.

    A implantação nacional está prevista para começar em 2027.

    Lucro anual cresce, mas benefício fiscal distorce resultado

    No acumulado do ano fiscal de 2026, a Qualcomm registrou receita de US$ 43,12 bilhões, uma queda de aproximadamente 3% em relação aos US$ 44,28 bilhões do exercício anterior.

    O lucro líquido divulgado, por outro lado, chegou a US$ 13,63 bilhões, crescimento de 146%.

    Entretanto, esse número precisa ser analisado com cuidado. A empresa reconheceu um benefício fiscal extraordinário de US$ 5,7 bilhões, relacionado à reversão de uma provisão tributária anteriormente constituída.

    Sem considerar os ajustes contábeis e fiscais, o resultado é menos favorável.

    Pelos critérios não-GAAP utilizados pela empresa, o lucro líquido anual caiu 15%, para US$ 11,31 bilhões. O lucro ajustado por ação também recuou 12%, passando para US$ 10,54.

    No quarto trimestre, a divisão de semicondutores QCT registrou receita de US$ 9,02 bilhões, queda de 8%. A divisão de licenciamento de patentes QTL movimentou US$ 1,30 bilhão, redução de 7%.

    A relação entre o lucro antes dos impostos e a receita da divisão QCT caiu de 29% para 24%, indicando uma pressão adicional sobre a rentabilidade do negócio de chips.

    Previsões para 2027 e reação do mercado

    Para o primeiro trimestre fiscal de 2027, a Qualcomm projeta receita entre US$ 10,4 bilhões e US$ 11,2 bilhões. A expectativa de lucro ajustado por ação está entre US$ 2,15 e US$ 2,35.

    Apesar das perspectivas de crescimento em inteligência artificial, automóveis e infraestrutura de comunicação, os investidores demonstraram preocupação com o desempenho do negócio de smartphones.

    Após a divulgação dos resultados, as ações da empresa recuaram mais de 6% nas negociações realizadas depois do fechamento do mercado.

    A pressão também está relacionada à expectativa de redução das margens da divisão de semicondutores, que deve ficar entre 20% e 22% no trimestre seguinte, segundo as projeções da companhia. O aumento dos custos de fabricação e encapsulamento dos chips está entre os fatores que explicam essa perspectiva.

    A Qualcomm pretende compensar parte dessas despesas com reajustes de preços, mas espera que os efeitos positivos dessas medidas apareçam de maneira mais significativa somente na segunda metade do ano fiscal de 2027.

    O momento representa um teste importante para a estratégia de Cristiano Amon. A Qualcomm precisa provar que consegue transformar sua experiência em processadores móveis em uma operação competitiva também nos mercados de inteligência artificial, data centers, automóveis e conectividade.

    O crescimento dessas áreas é promissor, mas ainda será necessário acompanhar se elas conseguirão compensar, de maneira sustentável, a pressão sobre o negócio de smartphones, que continua sendo uma parte fundamental das receitas da companhia.

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